quinta-feira, 1 de março de 2012

Uma reflexão para a quaresma

A Digna Morada, a nossa alma.

Estamos iniciando nestes últimos dias o período quaresmal, que consiste em nos instigar à conversão. Somos convidados docemente por Deus, a revermos nossas ações bem como nossas atitudes, se estão sendo dignas da vontade do Pai. Desta forma podemos nos questionar, como se encontra atualmente a morada do Espírito Santo, o nosso doce hóspede da alma? O que temos feito para que a nossa alma se 
torne cada vez mais digna de hospedar este doce hóspede?

Sob estes questionamentos é que percorreremos o caminho que nos conduzirá a grandeza e a relevante importância de cultivarmos e adornarmos esta santa morada. Para dignificar esta santa habitação, somos incitados a uma ação que possa motivar-nos a conversão, a um voltar-se a Deus. Neste processo de mudança, podemos ressaltar a oração, esta que nos permite interligar-nos ao Criador, ela nos coloca diante da presença divina. “A oração é venerável mensageira que nos leva à presença de Deus, alegra alma e tranqüiliza o coração” (Das homilias do Pseudo-Crisóstomo, século IV, Liturgia das Horas, Volume II, p.58). Mensageira esta, que nos permite estar de fato na presença de Deus, onde somos agraciados com a verdadeira alegria e docilidade que o nosso coração tanto almeja. Santo Agostinho já nos exortava "Que deseja a alma com mais veemência do que a verdade?", verdade esta que é o próprio Deus. A nossa alma, ansiosa busca repousar Nele, que é a verdadeira alegria e paz. “Inquieto está o nosso coração até que ele repouse em ti”(Santo Agostinho), assim deve ser o nosso desejo, em colocar-se a caminho Dele, que é a nossa esperança e salvação.

Este é o espírito que deve circundar o nosso coração, desejo este, que deve nos convidar diariamente a embelezar a habitação deste doce hóspede. É por meio da oração que podemos dignificar a morada de Deus. Com efeito, “A oração é luz da alma, o verdadeiro conhecimento de Deus, a mediadora entre Deus e os Homens” (Das homilias do Pseudo-Crisóstomo, século IV, Liturgia das Horas, Volume II, p.58).
Conhecendo melhor a Deus é que somos instigados a melhorar as nossas ações, quanto mais conhecermos Aquele que é bom, mais desejaremos imitá-lo. "Se quereis parecer-vos com Deus porque fostes criados à sua imagem, imitai o seu exemplo. Se sois cristãos, nome que já é uma proclamação de caridade, imitai o amor de Cristo" (Das Homilias de Santo Astério de Amaséia, bispo, século V, Ofício das Leituras de quinta-feira, liturgia das horas, volume II, p.107). Desta forma, sendo nós cristãos, somos convidados a abraçarmos o amor e a caridade, que tudo pode transformar o que nos afasta de Deus, ou seja, o pecado as nossas “sombras”, “limites”, estes que devemos  primeiramente identificá-los, aceitá-los e posteriormente transformá-los em “luzes” a partir da graça divina e de nosso esforço (RICCI, 2012).

Estas “sombras”, ou “limites”, é que nos impedem de embelezar esta morada do espírito, a nossa alma, que precisa e deve sempre manter-se limpa e adornada, para que o nosso doce hóspede possa habitar em plena dignidade. Para que possamos realizar estas mudanças é preciso que aprendamos a estarmos na presença de Deus, por meio da oração, alimentando-nos desta substância que nos fortalece e nos dignifica. È o verdadeiro alimento que sacia nossa alma. “Semelhante oração, quando o Senhor a concede a alguém, é uma riqueza que não lhe pode ser tirada e um alimento celeste que sacia a alma” (Das homilias do Pseudo-Crisóstomo, século IV, Liturgia das Horas, Volume II, p.58). Rico tesouro que Deus nos presenteia gratuitamente, a oração, aquela que permite colocar-nos diante Dele, a qualquer momento ou lugar. Através da oração, modificamos o nosso agir e sentir, pois é “Pela oração a alma se eleva até aos céus e une-se ao Senhor num abraço inefável; como uma criança que, chorando, chama sua mãe, a alma deseja o leite divino, exprime seus próprios desejos  e recebe dons superiores a tudo que é natural e visível” (Das homilias do Pseudo-Crisóstomo, século IV, Liturgia das Horas, Volume II, p.58). Desta forma é que somos abraçados pela graça divina, que nos alimenta, fortalece e nos permite preparar a digna morada.“Assim prepararás para o Senhor uma digna morada, assim terás um esplendido palácio real para o receber, e poderás tê-lo contigo em sua alma, transformada, pela graça, em imagem e templo da sua presença” (Das homilias do Pseudo-Crisóstomo, século IV, Liturgia das Horas, Volume II,  p.59).
Desta forma é que  a oração nos prepara, coloca-nos em estado de reverencia e respeito pela presença divina que há em nós. Convida-nos a manter esta morada sempre limpa, organizada e enfeitada com as boas obras que podemos realizar, quando nos deixarmos purificar de todas as “sombras” que só nos entristecem. 
Deixemos de lado tudo àquilo que nos amarra e que não nos permite estarmos dignos diante de Deus, permitamos que estas “sombras” se transformem em “luzes” a partir da graça de Deus e de nossos esforços (RICCI, 2012). Portanto, assim deve ser o nosso desejo diante de Deus, “Enfeita-se com boas obras, quais plaquetas de ouro, ornamenta-se de fé e de magnanimidade em vez de paredes e mosaicos”. (Das homilias do Pseudo-Crisóstomo, século IV, Liturgia das Horas, Volume II, p.59). Preparemos para o Senhor um esplêndido palácio espiritual, para que a nossa santa habitação seja de fato digna de hospedar Aquele que, docemente habita a nossa alma, o Espírito Santo.
No desejo de convidar-lhes a uma reflexão sobre as nossas ações nesta quaresma, coloquemo-nos em oração no ensejo de iniciarmos bem este período de conversão, movidos a melhoramos esta morada, que só nós mesmos e mais ninguém poderá limpar, organizar e enfeitá-la para Deus. Que este exercício de aproximação à Deus, possa nos dignificar cada vez mais, com a finalidade de estarmos, sempre a caminho independentemente de nossas fragilidades e misérias. Felizes estaremos nós, se estivermos a caminho. Desejo-lhes uma santa e abençoada quaresma.
Uma prece.
Jorge Armando Pereira.
Seminarista da Arquidiocese de Botucatu-SP.
Graduando em Licenciatura de Filosofia pela Faculdade João Paulo II de Marília-SP.


REFERÊNCIA

RICCI, L, Pe. Fala Senhor que Teu Servo Escuta: Retiro Espiritual do Seminário Provincial Sagrado Coração de Jesus, 23-26 de fev 2012. Apontamentos do retiro.
LITURGIA DAS HORAS. V. II. Petrópolis: Vozes. São Paulo: Paulinas\Paulus\Ave Maria, 1999.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Sobre o Concílio Ecumênico Vaticano II

Você sabe o que foi o Concílio Ecumênico Vaticano II?

Em 11 de Outubro de 1962, o então Papa João XXIII, declara oficialmente a Abertura Solene Do Concílio Ecumênico Vaticano II, com as seguintes palavras “uma irradiação de luz sobrenatural, uma grande suavidade nos olhos e no coração”, é assim que esse concílio foi e deve ser recebido por todos, no desejo de que cada vez mais a Santa Mãe Igreja possa se aproximar de seus filhos bem amados.
Contudo, a finalidade principal deste concílio é “que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais eficaz”, proporcionando a seus fiéis, corpo da Igreja, o ensino claro e distinto das verdades evangélicas, possibilitando a participação cada vez mais viva em meio aos Mistérios Sagrados. Essa iniciativa caminha de encontro com a realidade histórica e espiritual que envolvia a época em que o concílio foi convocado. A Igreja sentiu a urgente necessidade de abrir-se ao diálogo, possibilitando que todos os irmãos no episcopado, ou seja, representantes de todas as partes do mundo, pudessem manifestar suas sugestões e os clamores de seus povos.
Assim, a Santa Igreja demonstrou-se Mãe amorosa, num gesto carinhoso e cuidadoso de escuta de seus filhos, com o propósito de saber mais de perto quais eram seus anseios e necessidades mais urgentes. Diante dessas declarações, a Igreja propôs-se a revigorar alguns aspectos para que, de fato a salvação oriunda de Nosso Senhor Jesus Cristo pudesse ser cada vez mais compreendida, até pelos mais pequeninos de seus filhos.
Propostos para o revigoramento físico e espiritual, seus documentos e ensinos fomentaram grandes mudanças, ao promoverem, novamente, a união Àquele que é a nossa fonte salvífica, O Cristo. Sob esta luz irradiante, a Igreja teceu carinhosamente belíssimos ensinamentos e práticas, tão amorosos como o nosso Pai é para conosco.
Uma das grandes intervenções do Concílio Ecumênico Vaticano II foi, sem dúvida, a promoção da participação ativa do povo nas ações litúrgicas. Desta forma, o Mistério Pascal passou a ser celebrado em língua vernácula, ou seja, na língua respectiva de cada nação, tornando possível uma melhor compreensão do mistério celebrado e permitindo uma maior consciência da verdade salvífica que a Palavra nos transmite.
Assim, tais mudanças fizeram com que os fiéis se sentissem cada vez mais acolhidos como filhos e filhas muito amados do Pai, motivo pelo qual esse concílio continua produzindo frutos até os dias atuais, corroborando a belíssima intuição do saudoso Papa João XXIII, de "Abrir as janelas para que os ventos da História soprassem a poeira do Trono de Pedro". Em outras palavras, ele desejava que o novo pudesse ser ouvido e discutido, visando a melhoria para seus fiéis. Essa iniciativa permitiu que não somente os cristãos pudessem se manifestar, mas também que Igrejas de outras denominações, para que o homem moderno pudesse expressar seus anseios vividos em uma época de constantes mudanças.
Mesmo sabendo de sua idade e saúde fragilizada, o Papa João XXIII, entregou-se de corpo e espírito, no ensejo de que o Concílio acontecesse mesmo que ele não pudesse presenciar sua conclusão. Esse desejo de aproximar a Igreja do homem colocou-nos diante da verdadeira missão de nossa Igreja Católica Apostólica Romana, que é unir-nos em Cristo, nossa esperança e salvação, para o qual tudo converge, sem exclusões e distinções. Assim entrelaçados no mistério que nos faz filhos de um Pai, que entregou seu maior bem, Jesus Cristo, seu filho com a finalidade de nos salvar de nossos pecados, vencendo o mau e nos dando gratuitamente a graça da vida eterna.
Portanto, no desfecho deste breve comentário sobre o Concílio Ecumênico Vaticano II, que se encontra às vésperas de completar seu 50 ºaniversário de abertura (1962-2012) coloquemo-nos dispostos a adentrar nesta “Mistagogia”, a fim de sermos conduzidos ao mistério que o envolve, trilhando um caminho de verdade e vida que nos permita vivenciar por inteiro esta multiplicidade de bênçãos divinas que somos convidados a testemunhar, como partes integrantes deste corpo que é a Igreja tendo como sua cabeça Jesus Cristo.

Jorge Armando Pereira
Graduando em Filosofia pela Faculdade João Paulo II, Marília - SP.
E-mail: jorge.armando.p@hotmail.com \ (14) 9151-2477.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Ilustração para a Capa do Informativo Paroquial
Consolador\ Novembro\ 2011
J. PEREIRA

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

       O Ícone

Texto desenvolvido por Jorge Armando Pereira

Desde os tempos mais antigos os ícones já vem sendo difundidos como fonte de veneração e devoção nas mais variadas localidades do mundo. Mas, a sua forma de ser confeccionado também parece ter carecido de características fundamentais, as quais os fizeram dignos de veneração. Aspectos estes, que os tornaram como relíquias em nosso meio.
Sem dúvida, podemos afirmar que, o contexto que os ícones estão inseridos nos provocam um processo de introspeção e profunda oração, ou seja, um diálogo intímo com o nosso Deus. A partir disso, é que podemos perceber que “O ìcone, não se atendo aos detalhes, é como a Palavra de Deus, só mostra o essencial. Por isso, renuncia-se à expressão naturalista do espaço”. (ANTUNES, 2010, p.60), expressão esta que é fruto de uma intensa espiritualidade que associada a técnica nos conduz por este viés espiritual, com a finalidade de nos estabelecer um estímulo de oração.
Assim, com esta temática espiritual, nós somos norteados à vivenciar diante de um ícone a experiência que o artista imprimiu por meio de suas características no trabalho realizado, nos possibilitando um experimentar desta maravilha divina a qual ele mesmo desfrutara por primeiro. Retratar um centelha da Beleza Divina, é como por deixar-se ser instrumento, para que o divino possa habitar entre nós, por meio da Arte Sacra, ou seja, Arte Sagrada. Desta forma, podemos inferir que “Ora, se a experiência do artista é a Beleza divina, o espectador experimentará esse mesmo deleite perante a obra, o ícone”. (ANTUNES, 2010, p.61), este deleite nos será aprazivel a partir do momento em que nós estivermos com os nossos horizontes abertos, a experienciar esta beleza infindável, que é o próprio Deus.
Experienciar este, que somos convidados a nos contagiar, por meio da Beleza, transmitida pelos Ícones, que nos permitem um processo de unificação da experiência com Deus. Com efeito, somos incitados “Há um ‘contágio’ do kalós (belo, bom e verdadeiro) que nos une na experiência com Deus” (ANTUNES, 2010, p.61), contudo, passamos diante destas obras sagradas a nos interligarmos com o transcendente que se faz também próximo  de nós por meio da Arte, que nos possibilita vivenciarmos a liberdade e a simplicidade que sempre deve nortear nossa espirtualidade cristã.

REFERÊNCIA

ANTUNES, O. A beleza como experiência de Deus. São Paulo: Paulus, 2010.

sábado, 15 de outubro de 2011



O trabalho com a arte sacra é algo transcendental, pois é através deste que podemos proporcionar ao público um contato com o transcendente “Por isso, o artista sacro, ou iconógrafo, tem de ser alguém que procura ter profunda experiência do transcendente. Assim, ele ‘escreve’ o que vivenciou através dos símbolos, transmitindo a outros sua experiência de transcendência” (ANTUNES, 2010, p. 13), este relatar a experiência fica impresso em sua obra que irá provocar as pessoas um sentimento de contemplação do divino.
A iconografia é um meio de traduzir através de símbolos aquilo que temos de divino, o bem maior de forma harmônica e acessível, aos olhos e toque de todos. È um aproximar o transcendente de todos por meio da arte, que suaviza todo o caos vivido internamente em todo ser humano. Todos estes aspectos são relevantes neste processo de evangelização, os quais incitam as pessoas a se apaixonarem pelo divino por meio da arte, de uma forma dinâmica e contemplativa. “Ela é um órgão constitutivo da vida humana, transmitindo a percepção racional das pessoas para o campo dos sentimentos. Ela faz parte daquilo que define o ser humano e o integra ao seu mundo e à transcendentalidade” (ANTUNES, 2010, p. 11-12). Através da arte somos convidados a vislumbrar a beleza do criador, pois somos tocados pelo sentimento que o artista vivenciou ao pintar aquela obra sacra, de forma que podemos viver naquele momento uma experiência real de algo que tanto buscamos uma vida inteira, uma experiência com Deus.
“Beleza é comunicação, pois só há beleza em relação de alguém para alguém. A iconografia é sacramento dessa comunicação misteriosa” (ANTUNES, 2010, p. 07). A iconografia nos interliga com o misterioso, o que está acima de todos nós, este conectar-se é algo que todos procuram por tantos meios, mas não percebem que a arte pode elevá-los de uma forma tão singela e prática, que na maioria das vezes nem nos damos conta. È na simplicidade da arte, na espontaneidade, e na liberdade de expressar as figuras que a arte alcança à todos de uma forma carinhosa e aconchegante.
 Como o próprio Deus, que é amor, suavidade e compaixão, um Deus tão simples que nos deixa tocá-lo por gestos tão singelos, como a arte. “A arte sacra é um lugar epifânico, da revelação da beleza do Criador. A experiência cristã da beleza passa por essa percepção de um olhar transfigurado e transfigurador da realidade” (ANTUNES, 2010, p. 05. Itálico do autor). É neste lugar epifânico que realizamos este contato quase que material com o nosso criador.

Texto desenvolvido por Jorge Armando Pereira

Referência

ANTUNES, O. A beleza com experiência de Deus, São Paulo, Paulus, 2010.